O bloqueio funciona. E por isso não resolve.
93,57% dos domínios bloqueados não resolvem. Mas 24,3% das ordens são de marca já bloqueada antes.
Entre janeiro de 2025 e julho de 2026 o Estado brasileiro mandou bloquear 51.150 endereços ligados a apostas. A medição mostra que a ordem é cumprida na quase totalidade dos casos. O problema é outro: 24,3% desses bloqueios recaem sobre marca que já havia sido bloqueada — e a proporção sobe.
Este relatório usa duas bases e nunca as soma. Volume, escalada e reincidência vêm da planilha oficial do Ministério da Fazenda (51.150 endereços com data). Cumprimento e classificação vêm da lista aplicada pelos provedores (88.997 domínios), medida de um único ponto de rede em São Paulo. A interseção entre as duas é de 98,8%.
A escalada
Endereços que o Ministério da Fazenda mandou bloquear, por trimestre. Em sete meses de 2026 foram 36.831 — 2,55× todo o ano de 2025.
O trimestre de pico concentra 22.532 endereços — 6,5× o primeiro trimestre da série.
O período marcado com asterisco é parcial: cobre somente julho de 2026 e não deve ser comparado com trimestre fechado.
Um em cada quatro bloqueios é repetição
Agrupando os endereços por marca, 7.738 das 24.135 ordens recaíram sobre marca que o Estado já havia mandado bloquear antes. A proporção não é estável: no último período medido chegou a 39,9%.
198 marcas foram bloqueadas em três ou mais trimestres distintos. Três delas aparecem em todos os sete períodos da série — do começo de 2025 a julho de 2026.
O cumprimento é alto
Dos 88.997 domínios da lista aplicada pelos provedores, 83.274 não resolvem — 93,57%. A ordem chega e é executada.
A medição compara a resposta do resolvedor do provedor com a de um resolvedor neutro. A assinatura que separa bloqueio de domínio inexistente está na própria resposta DNS: ausência do registro de autoridade indica resposta sintética do provedor, e não domínio que deixou de existir.
Isso só é observável de dentro de uma rede de acesso brasileira. O bloqueio é aplicado no resolvedor do provedor — uma sonda em nuvem ou em rede de datacenter não o enxerga.
Esta medição foi feita de um único ponto: uma conexão residencial em São Paulo, em 24 de agosto de 2026. Ela descreve o que acontece naquele ponto, e não o comportamento de todos os provedores do país.
Quem escapa
4.412 domínios da lista continuam resolvendo. Destes, 2.403 responderam a uma requisição — mas responder não é operar.
Boa parte do que responde é casca: 541 endereços devolvem página vazia, corpo mínimo ou anúncio de venda do domínio. Não há operação por trás.
Depois de separar essas, sobram 1.624 casas de aposta efetivamente em funcionamento, com conteúdo do setor identificado na página. Sobre o universo de apostas da lista, isso representa 4,86%.
A classificação olha o conteúdo servido, não o nome do domínio. Endereços sem qualquer palavra do setor no nome se revelaram cassinos ao abrir a página — e o contrário também ocorre.
Sete meses até a ordem chegar
Consultando a data de registro dos domínios da lista oficial, a mediana entre o endereço nascer e ser bloqueado é de 209 dias. Apenas 28,8% são bloqueados nos primeiros 90 dias de vida.
Metade dos endereços opera mais de 209 dias antes de o bloqueio chegar. Somado à reincidência, o quadro descreve o custo do instrumento: bloqueia-se o endereço, não a operação — e trocar de endereço custa pouco.
A troca de endereço, observada
Entre os domínios bloqueados que continuam resolvendo, há um padrão recorrente: o endereço antigo permanece de pé e encaminha o visitante para um sucessor ainda não bloqueado, com o mesmo identificador de sessão na URL.
A numeração sequencial nos nomes sugere fila preparada com antecedência. Foram identificados 85 endereços de destino que ainda não constavam da lista de bloqueio.
Nem todo redirecionamento é evasão: 31 endereços internacionais de marcas licenciadas no Brasil encaminham para o domínio autorizado. Nesse caso o desenho está funcionando — o endereço internacional é bloqueado justamente porque a operação legal precisa ocorrer no domínio brasileiro.
Metodologia
Fonte primária do volume: resposta ao pedido protocolo 18800.126199/2026-92, dirigido ao Ministério da Fazenda com fundamento na Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011), com decisão de acesso concedido em 10 de agosto de 2026. O anexo traz 51.295 linhas com data de envio, distribuídas em sete abas trimestrais, correspondentes a 51.150 endereços únicos. A fonte rotula a coluna como URLs; na prática as entradas são nomes de host, e apenas cinco delas trazem caminho.
Verificação da base: a soma da janela de janeiro de 2025 a junho de 2026 dá 45.030 endereços, contra 45.037 declarados na resposta anterior — diferença de 7 linhas. A comparação mês a mês entre as duas respostas fecha em todos os meses menos três: fevereiro de 2025 traz 7 linhas a menos, e fevereiro de 2026 e maio de 2026 diferem em uma linha cada, em sentidos opostos. As duas respostas são do mesmo órgão e a divergência fica registrada como está, sem interpretação.
Lista aplicada: arquivo público mantido pela comunidade de provedores de internet, com 88.997 domínios na posição de 24 de agosto de 2026. A interseção com a lista oficial é de 98,8%, o que permite tratá-la como espelho da fonte oficial para fins de medição.
Medição de cumprimento: consulta DNS a cada domínio da lista aplicada, comparando a resposta do resolvedor do provedor com a de um resolvedor neutro, e usando a presença do registro de autoridade para distinguir bloqueio de domínio inexistente.
Classificação de conteúdo: para os domínios que responderam, leitura da página servida e do pacote JavaScript que ela carrega, procurando vocabulário do setor, nomes de fornecedores de jogo e o aviso legal de jogo responsável.
Tempo até o bloqueio: consulta de registro de domínio para amostra aleatória de 900 endereços da lista oficial, dos quais 524 tiveram data de registro recuperável.
Agrupamento por marca: raiz do nome do domínio com os dígitos removidos, descartando raízes genéricas do setor. Consolidação, agrupamento e cálculo: VerificaBet.
O que estes dados não dizem
A medição de cumprimento é de um único ponto de rede — uma conexão residencial em São Paulo, em 24 de agosto de 2026. Um domínio que não resolve nesse ponto pode estar acessível em outro provedor. O relatório descreve o que mediu, e não afirma comportamento nacional.
As duas bases nunca são somadas. Volume e reincidência vêm da planilha oficial; cumprimento e classificação, da lista aplicada. Cada número declara sua origem.
A soma das barras não é o total de endereços. 145 dos 51.295 registros aparecem em mais de um trimestre, o que dá 51.150 endereços únicos. A planilha também traz, em uma das abas, um rótulo interno que difere em uma linha do conteúdo dessa aba; o relatório usa a contagem das linhas e registra a diferença sem interpretá-la.
O agrupamento identifica marca, não empresa. O padrão de nome sugere fortemente a mesma operação, mas não estabelece vínculo societário: as tentativas de recuperar identificação empresarial pela superfície pública não produziram resultado verificável.
Nenhuma marca é nomeada. Parte das raízes de domínios bloqueados coincide com nomes de marcas licenciadas no Brasil, e um recorte nominal sem separação adequada atribuiria irregularidade a operadora autorizada.
A lista aplicada tem escopo misto. Além de apostas, inclui ordens judiciais sobre pirataria de transmissão e outros objetos. Somente o subconjunto classificado como aposta é usado nas contas de escape.
A classificação de conteúdo é heurística. Serve ao agregado publicado e não sustenta afirmação sobre um endereço individual.
O último período da série é parcial, cobrindo apenas julho de 2026.
A reincidência não é atribuída como falha de nenhum órgão. Ela descreve o custo do instrumento diante de um ator que troca de endereço.
Ordens de bloqueio de domínios de apostas
Perguntas frequentes
Quantos sites de apostas o Brasil bloqueou?
Entre janeiro de 2025 e julho de 2026 o Ministério da Fazenda registrou 51.150 endereços bloqueados ligados a apostas. Só em 2026, em sete meses, foram 36.831 — 2,55× o total de todo o ano de 2025.
O bloqueio de sites de apostas funciona no Brasil?
93,57% dos 88.997 domínios da lista aplicada não resolvem a partir de uma conexão residencial em São Paulo, na medição de 24 de agosto de 2026. O cumprimento da ordem é alto. A limitação do instrumento aparece em outro lugar: 24,3% das ordens recaem sobre marca já bloqueada anteriormente.
Quantos sites bloqueados continuam no ar?
4.412 domínios da lista continuam resolvendo. Depois de descartar páginas vazias e domínios à venda, 1.624 são casas de aposta efetivamente em operação — 4,86% do universo de apostas da lista.
Por que um site bloqueado volta com outro endereço?
Porque o bloqueio recai sobre o endereço, não sobre a operação. O relatório identificou 85 endereços de destino que recebiam tráfego de domínios bloqueados e ainda não constavam da lista. A numeração sequencial nos nomes sugere fila registrada com antecedência.
Quanto tempo demora para um site de apostas ser bloqueado?
A mediana entre o registro do domínio e a ordem de bloqueio é de 209 dias, em amostra de 524 endereços. Apenas 28,8% são bloqueados nos primeiros 90 dias de existência.
De onde vêm os dados deste relatório?
O volume e a reincidência vêm de planilha oficial do Ministério da Fazenda obtida por pedido de acesso à informação. O cumprimento vem de medição de rede feita pelo VerificaBet sobre a lista aplicada pelos provedores, de um único ponto em São Paulo. As duas bases nunca são somadas.