Para onde vai o dinheiro das apostas
As bets pagaram R$ 2,48 bilhões à União no 1º semestre de 2026. A saúde ficou com 1,18%.
A única rubrica do sistema destinada a prevenir e mitigar o dano do jogo recebeu R$ 27,8 milhões. O turismo recebeu 20,3× isso; o caixa livre da União, 18,5×. Não é oscilação do semestre — a fatia da saúde é praticamente idêntica desde a estreia da regulação.
Este relatório usa duas planilhas oficiais com bases distintas e nunca as soma. O total do semestre vem da série da Receita Federal, completa. A repartição vem do extrato do Tesouro Gerencial, cuja extração de 03/07/2026 ainda não fechou junho (R$ 401,5 milhões ali, contra R$ 513,0 milhões na série da Receita). A fatia da saúde é a mesma nas duas bases.
Para onde foi cada real
Nove destinos, ordenados pelo que receberam entre janeiro e junho de 2026. A coluna da direita mostra quantas vezes cada um recebeu o que a saúde recebeu.
Por dia: R$ 153.512 para o dano do jogo. R$ 3,1 milhões para o turismo.
A fatia da saúde não se moveu
O rateio do setor opera com percentuais fixos. A participação da saúde é praticamente idêntica em todos os recortes desde a estreia da regulação — o que se vê no semestre é o desenho, não um mês atípico.
A objeção previsível
A leitura acima será contestada com um argumento específico: o de que há R$ 274,6 milhões classificados como seguridade social, e que saúde é parte da seguridade. O argumento não se sustenta por duas razões.
A primeira é de destino. Essa linha aparece no extrato sob a fonte de recursos livres da seguridade social, com órgão Ministério da Fazenda e unidade orçamentária Receita do Tesouro da União. Ela não chega ao Ministério da Saúde. A única linha que aterrissa no Fundo Nacional de Saúde é a de R$ 27,8 milhões.
A segunda é aritmética. Mesmo somando as duas, o resultado é 12,8% do total — ainda abaixo do turismo e abaixo do caixa livre da União.
Há também o contraste institucional. A prestação de contas pública dedica uma seção ao jogo responsável e descreve um grupo de trabalho de prevenção e redução de danos formado por Fazenda, Saúde e Esporte. Nesse mesmo semestre, o Esporte recebeu mais de quinze vezes o que a Saúde recebeu.
R$ 514,1 milhões sem carimbo
A prestação de contas pública do setor reparte a destinação legal em nove fatias — esporte, turismo, segurança pública, educação, seguridade social, saúde, fundo da Polícia Federal, sociedade civil e agência de desenvolvimento industrial. Elas somam exatamente 100%. Nenhuma delas é o Tesouro.
O extrato do Tesouro Gerencial traz uma décima linha, sob a unidade orçamentária Receita do Tesouro da União e a fonte de recursos livres da União — desvinculação de receitas. Foram R$ 514,1 milhões no semestre e R$ 1,39 bilhões desde o início do regime.
A desvinculação é um mecanismo constitucional e legítimo. O ponto não é sua existência: é que a peça de prestação de contas apresenta a destinação como integralmente vinculada a esporte, turismo, educação, saúde e segurança, quando aproximadamente um em cada quatro reais dessa mesma cesta entra como recurso livre. E o dinheiro sem carimbo é 18,5× o dinheiro carimbado para a saúde.
O rateio mudou em maio de 2026
Os percentuais de rateio batem à segunda casa decimal mês a mês, o que torna qualquer alteração visível e datável. Entre abril e maio de 2026 houve uma: o fundo da Polícia Federal passou de 0,46% para 7,33% da cesta — 15,8× — e todas as demais rubricas vinculadas caíram na mesma proporção, 10,7%. A do caixa livre subiu.
Metodologia
Fonte primária: resposta ao pedido protocolo 18800.116741/2026-07, dirigido ao Ministério da Fazenda com fundamento na Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011), com decisão de acesso concedido em 30 de julho de 2026. Respondido pela Secretaria de Prêmios e Apostas e pela Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil.
Total do semestre: série de arrecadação líquida das loterias de quota fixa por mês de apropriação, da Receita Federal.
Repartição: extrato do Tesouro Gerencial por natureza de receita, órgão, unidade orçamentária e fonte de recursos, extração de 03/07/2026 para 2026 e de 12/06/2026 para 2025. Inclui as duas linhas que a planilha classifica como valores que transitam pelo orçamento sem serem receita pública.
Comparações com a comunicação oficial: Panorama Periódico do mercado regulado de apostas de quota fixa, 1º trimestre de 2026, referência MF-SPA-SMF-RP-26-01-260507.
Consolidação, agrupamento por destino e cálculo: VerificaBet. Nenhuma linha da planilha foi descartada.
O que estes dados não dizem
Não medem suficiência. O relatório compara proporções entre destinos; não avalia se o valor destinado à saúde é adequado à demanda, o que exigiria dados de custo, cobertura e prevalência ausentes desta base.
Não medem execução. O extrato mostra o que foi arrecadado e a qual órgão e fonte foi destinado — não mostra se o recurso foi empenhado, pago ou aplicado.
Junho está incompleto na base de repartição, por isso o total do semestre e a repartição vêm de planilhas diferentes e nunca são somados.
A desvinculação de receitas é constitucional. Registrá-la não implica irregularidade; o achado é sua ausência na peça pública de prestação de contas.
Não afirma irregularidade de nenhum órgão. As divergências apontadas são entre documentos oficiais e estão descritas como perguntas abertas.
Relatório completo (PDF, 8 páginas)
Perguntas frequentes
Quanto as apostas pagaram à União no 1º semestre de 2026?
R$ 2,48 bilhões, segundo a série de arrecadação líquida das loterias de quota fixa da Receita Federal, entre janeiro e junho de 2026. É 47,8% mais que no mesmo período de 2025, e já equivale a cerca de 60% de todo o ano de 2025 (R$ 4,16 bilhões).
Quanto desse dinheiro foi para a saúde?
R$ 27,8 milhões — 1,18% do total repartido. É a única rubrica do sistema destinada a prevenir, controlar e mitigar o dano da prática de jogos, e ela aterrissa no Fundo Nacional de Saúde. Equivale a R$ 1,83 por CPF que apostou no período e a R$ 36,34 por pessoa que pediu autoexclusão no semestre.
E o turismo, quanto recebeu?
R$ 565,3 milhões, somando o Ministério do Turismo e a Embratur — 20,3× o que foi para a saúde. Só a Embratur, agência de promoção do Brasil como destino turístico no exterior, levou R$ 152,7 milhões, ou 5,5× o valor da saúde.
O que é a linha de caixa livre da União?
É a fonte de recursos livres da União, ligada à desvinculação de receitas prevista na Constituição. Recebeu R$ 514,1 milhões no semestre. A desvinculação é legítima; o achado do relatório é que a prestação de contas pública do setor reparte a destinação em nove fatias que somam 100% e não inclui essa linha.
Por que existem dois totais diferentes no relatório?
Porque são duas planilhas oficiais com bases distintas, e elas nunca são somadas. O total do semestre vem da série da Receita Federal, completa. A repartição vem do extrato do Tesouro Gerencial, cuja extração de 03/07/2026 ainda não havia fechado junho. A fatia da saúde é a mesma nas duas bases, porque o rateio opera com percentuais fixos.
O relatório acusa algum órgão de irregularidade?
Não. Todas as divergências apontadas são entre documentos oficiais e estão registradas como perguntas abertas, porque a base de cálculo não foi publicada. A desvinculação de receitas é constitucional.